quarta-feira, 26 de setembro de 2012


      A Barra.

      Uma sintonia perfeita; ali as ondas beijavam as pedras. O sol beijava o mar.
Não precisaria nem em um milhão de anos outra sonoplastia, senão, as gaivotas guinchando sob o céu e as ondas num eterno “splash” sob o mar.
     O cigarro era doce. A conversa era doce. Uma tarde doce, misturando-se ao salgado da praia.
     Que válvula de escape perfeita era se esconder diante as pedras, senti-las quente sobre as costas. Os óculos no tom sépia davam uma cor diferenciada aos olhos que antes de estar ali, viram passar multidões atarefadas com seus problemas pessoais, ou não tão pessoais assim.
     A primeira vez em que estivera no mesmo ambiente, porém, em outro universo. A conversa tão aleatória quanto os pensamentos que vagueavam dentro da cabeça. Nada de preocupação. Um eterno relaxamento da alma e o corpo. Tão barato, e muito nosso; poucos exploram aquele cenário.
     Um convite tão repentino.  Uma nova amizade, assim também, repentina.  A gratidão de ambos os olhos por presenciar, apreciar e contemplar aquela tarde de semana; quarta-feira, precisamente.
    Agradecer foi o que fizeram. Mas, não muito antes de agradecer aquilo tudo que rodeava.





sexta-feira, 8 de junho de 2012


Três remeças de amor. Ele nunca tinha experimentado uma carreira de cocaína. Vinho seco. Crianças que corriam lá fora, no pátio. Pareciam ninjas.
Anjos não dormem, pensou ele, “estou no céu, talvez”.  Quem sabe pense mesmo em alugar aquilo ali e partir para outro mundo. Uma escuridão bizarra, junto ao clarão momentâneo. Três figuras abstratas. Johnny Paul no violão? Não sabia...
Ele só sabia que algo estava errado. Mas, preferiu não tentar compreender. Antes de ir, iria deixar um bilhete ao futuro inquilino. Pra caso ela voltar. Ele sabia que isso não ia acontecer, mas, arriscaria.
Estação de trem. Bilhete de partida na mão. Era hora de reviver.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Alguns analgésicos para aliviar a dor de cabeça causada pela ressaca que não perdoou o consumo exagerado de tequila, conhaque e cerveja.
Havia ido a uma festa de rock. Queria sentir seus poros arderem na fumaça daquele ambiente, louco e sádico. Homens com cara de brigões chegavam em motos turbinadas com jaqueta de couro preta, algumas com uma espécie de símbolo de gangue atrás. 
Ele sentiu que aquilo ali não era o seu lugar. Mas, já que estava lá, resolveu entrar na “dança”. O seu celular tocava insistentemente, ele olhava e desligava a chamada. Seus amigos sempre vinham com alguma garrafa de bebida. Uns puxavam um baseado.  Ele preferiu apenas beber.
Uma banda cover dos Ramones entrou no palco, todos numa mesma sintonia “HEY HO, LET’S GO!”.  Algumas pessoas subiam até o palco e se jogavam de contra a multidão. 
Era loucura, era rock n’ roll. Não havia pudor ou moralismo. Havia homens loucos, mulheres sem juízo.
“Nova era, irmão!” O seu amigo gritou.  Ali era o lugar de perdição, mas, ele já estava perdido em sim mesmo. Então, ali atrás do palco, suas calças caídas e suas pernas bambas de tanto beber. Ele, por certo toque esquisitice, se encontrou. 

sábado, 26 de maio de 2012



- Qual sua cor preferida?
- Vermelho. E a sua?
- Roxo.
- Eu gostava de roxo, há um tempinho atrás.
- E não gosta mais por quê? Antes era um machucado que sangrou?
- Antes era um cabelo roxo, que hoje é preto. Mas, meu sapatinho de pano é vermelho. Prefiro ele!
- (Silêncio. Voltaram à observar as janelas.)

quarta-feira, 23 de maio de 2012


Ela estava linda – pensou ele, escondendo-se atrás de uma das pilastras daquela igreja, enfeitada com flores e cheia de convidados.
Estava entrando. A noiva junto ao seu pai, de braços dados, tudo conforme o figurino. As trombetas junto aos violinos, um coral de jovens. O seu vestido de grande calda branca acompanha de duas damas de honra. Uma segurando uma cesta de pétalas de rosas, a outra com uma espécie de almofadinha com duas pontas douradas e brilhantes em cima. Com certeza, o par de alianças.
Ela chegou lá, no altar, foi entregue ao cara mais sortudo do mundo. E assim, seguiu a cerimônia.
Então, a ultima coisa que ele escutou o podre dizer foi: “Se existe alguém contra esse casamento, que fale agora ou cale-se para sempre”. A pois escutar isso, toda a coragem que ele tinha reunido para berrar diante a igreja, e tentar acabar com o casamento da sua amada, foi embora. Ele apenas a olhou pela ultima vez, abaixou a cabeça e seguiu em direção a saída.
Um grande silencio. Todos esperando algum tipo de baixaria para ser comentada depois. Mas, nada acontecera. Excerto, se ela não tivesse voltado-se para trás, e não tivesse visto ele ir embora como um covarde.
Ela então gritou que tinha algo contra o casamento. O noivo olhou para ela. Os convidados com a boca em formato de “O”. A mãe dela segurando-se ao marido, quase desmaiando. A mãe do noivo com cara de nojo e aquele ar de quem sabia que não ia dar certo. Então, o padre perguntou qual era a objeção. Ele ainda de costas na saída da igreja, parado e tremulo.
Ela então encheu seus pulmões de ar e disse “Aquele cara ali - apontando pra ele. Ele veio aqui para me tirar desse altar. Eu sabia que ele viria. Mas, acho que lhe faltou alguma coisa”.  Ele virou-se para ela e todos aqueles presentes ali.  Ela continuou... “Faltou coragem para me tirar daqui, me colocar na garupa da sua moto e me levar para longe. Dizer-me o quanto me ama e o quanto não admite esse casamento”. Com lagrimas nos olhos, ela terminou dizendo... “Pois bem, ele não disse. Então, eu digo! Me tira desse altar, não me deixa completar essa besteira, me faça feliz da maneira que só você sabe fazer, seu idiota!”
Todos ali presentes estavam pasmos. Sua mãe desmaiou de vez. A mãe do noivo saiu daquele “circo” como ela mesma intitulou. O noivo paralisado. Ela desceu do altar. Ele caminhou em sua direção. Os dois ficaram frente a frente. Um beijo rápido e uma fuga. Ninguém sabe o desenrolar dessa historia. Ninguém sabe se eles tiveram três filhos e um cachorro chamado Boris. Ou se meses depois, tiveram uma terrível discussão, e ela se arrependeu amargamente.
A única coisa que todos sabem é que mesmo diante de toda loucura, o amor falou mais alto. E se prender em uma gaiola apertada, com certeza, atrofiam-se as asas.  

No rádio sempre tocará aquela velha musica que não se pode faltar à noite. Lembranças e um copo de café cheio. Pouco açúcar pra acompanhar a vida amarga. Apenas procurava nela um amor, o qual nunca havia encontrado antes. Casa fechada. Ela achou tudo tão empolgante que caiu fora, deixando apenas suas lembranças para que ele se afundasse nesse mundinho que era todo dela. Nada mais era tão aconchegante quanto aquele silencio mórbido. O cinzeiro transbordava cinzas e resto de bituca. O perfume doce misturava-se ao cheiro nostálgico de loucura. Janis tocando na rádio "come on and cry, cry baby, cry baby, cry baby" e tudo o que restava era dormir pra, quem sabe, esquecer por algumas horas a existência daquele amor dilacerante, mesmo que, para ele, "esquecer" soasse tão impossível.



- Você não sente mais ciúmes de mim? Por que assim... Parece que não me ama mais.
- Não, eu...
- Tá, tudo bem, eu sei que é muito piegas essa coisa de amor, apego e tal.
- Mas...
- Não, não precisa falar nada. Sei que não é muito bom com as palavras. Não quero parecer que estou pressionado a você me dizer algo legal.
- Como vo...
- É serio! Deixa pra lá! Toma logo o teu café e mastiga esse pão direito.
- Hm.
- Tá, desculpa! Eu sei que eu sempre atropelo você nas suas palavras. Eu não deveria fazer isso não é? Ta, vou ficar bem quietinha aqui, só te escutando. Pode falar o que você quiser juro...
- Me passa o açúcar, por favor?